Eu sou no mundo. O que me circunda me constitui. Palavras que falo e ouço, ruas por onde passo, pessoas que amo, que apenas conheço, que não conheço, mas vejo. Tudo é parte de mim. Descobrir-me é adentrar a vida que aflora e tangencia aquilo que em mim percebo.
Tento me definir. E me limito. Surge o termo preciso como uma concha de significado. Minhas fronteiras já são fronteiras e assim me separo do mundo onde sou. Emerjo particular em momentos particulares. Idéias, conceitos, planos: nestes, eu sou meu eu, mas também nestes sou o todo. Compartilho minhas experiências, extraio meu modo de ver do modo de ver dos que vêem comigo. Os que vêem o que não vejo me trazem o estranhamento para que a consciência da distinção apareça como o antídoto à minha diluição na multiplicidade. Vivo e sou essa perene dialética do próprio e do alheio, e me revelo à medida que o mundo se revela.
Minhas angústias e medos são meus próprios. Mas não estou sozinha. Vejo as angústias e medos que afligem aquele outro eu que está no próximo. Reconheço-me. Igualo-me. Busco o sentido dessa identidade que não se revela de todo, que só em partes se mostra e que exige de mim uma pluralidade quase paradoxal. Mas busco, por vezes encontro, por vezes me emaranho no fio que conduz minha cruzada. E me enredo nos fios que tramam o tecido da minha existência, fios com que teço meu lugar no mundo, meu reflexo no espelho, meus laços de afeição. E nesse enredar, buscar, achar, tecer, vejo quem sou. Só em pedaços, só por hoje, só enquanto dura o momento fugaz eu tenho certeza de mim.
quarta-feira, 28 de março de 2007
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